Projeto de literatura utiliza tecnologia para superar distanciamento social

O Projeto A Literatura Cura agora dispõe da ajuda tecnológica para superar as barreiras do distanciamento social e manter acolhimento de pacientes no Hospital Cassems de Campo Grande

Pela primeira vez desde sua criação, há três anos, o Projeto A Literatura Cura, coordenado pela poetisa e historiadora Raquel Anderson e desenvolvido junto aos pacientes no Hospital Cassems de Campo Grande, utiliza a tecnologia para encurtar distância e superar as barreiras do isolamento social imposto pela pandemia de Coronavírus. Para não perder o ritmo de trabalho e manter a conexão com os pacientes, verificando suas necessidades emocionais a anamnese literária que era costumeiramente feita de forma presencial agora conta com o apoio de aplicativos de vídeo conferência e um tablet. “Como a pandemia do Covid-19 nos obrigou a realizar o distanciamento social, acabamos por utilizar a tecnologia para manter o vínculo com os nossos pacientes e desenvolver o trabalho de acolhimento que era feito presencialmente”, explica Raquel.
Com o apoio da equipe multidisciplinar, em especial os profissionais da psicologia clínica, os pacientes são abordados e questionados se há o interesse de participar do projeto que, temporariamente, passou a se chamar de Tele Literatura Cura. A equipe de psicólogos marca dia e hora para receber a “visita virtual” da Raquel Anderson, que por ser do grupo de risco, também está cumprindo o distanciamento social, mas mantém o trabalho em home office. Via internet, no dia e hora marcados, é feita a vídeo chamada. “Nesse momento a Raquel conversa e acolhe o paciente e, através da anamnese literária, constrói uma poesia personalizada, cheia de carinho e detalhes que emocionam não apenas quem está internado, mas toda a equipe”, conta a psicóloga hospitalar, Rejane Ferreira Amorim de Oliveira.
Maria Vitória, 16, é uma das pacientes que foram atendidas pelo novo formato do Projeto A Literatura Cura. A jovem permaneceu internada após sentir fortes dores de cabeça, resultado de uma encefalite que causou a perda de 80% da visão. Enquanto aguardava cirurgia para reverter o processo de perda da visão, ela conversou com a Raquel via tablet. Mesmo sem conseguir focar os olhos na tela, ela pode sentir na voz da poetisa o carinho de ser acolhida e contou alguns detalhes do que pretende fazer após a internação: “Vou valorizar mais a vida que tenho, ajudar mais a minha mãe e estar mais próxima das pessoas que amo”, diz emocionada.
Alguns dias depois da cirurgia que tinha como objetivo aliviar a pressão sobre os nervos ópticos e fazer com que a visão voltasse ao normal, Vitória, ao lado da mãe, Ana, recebeu a caixa do Projeto A Literatura Cura. Dentro uma cartinha, escrita à mão. A letra cursiva, bem desenhada, formando frases que desenhavam o estilo e a personalidade de Vitória. Ao ouvir as palavras, lidas pela mãe, os olhos, já focando os objetos e pessoas ao redor, brilhavam de felicidade. Ao perceber que no final da carta estavam bordados dois pequenos cães, ela sorriu e disse, surpreendida: “Nossa, até meus cachorros estão aqui. Estou louca para vê-los, com muitas saudades. Obrigada pela carta. Agora estou muito melhor”.
“Nesse momento de pandemia, em que as pessoas precisam se reinventar, felizmente a tecnologia está a nosso favor”, comenta Raquel, que já recebe várias demandas para o Tele Literatura Cura. A poetiza, mesmo em home office, acompanha todos os pacientes que aceitam participar do projeto e receber uma palavra de carinho. É o caso de Kailayne da Silva Portante, que uma vez por semana precisa enfrentar cerca de 120 quilômetros de Nova Alvorada do Sul à Campo Grande, para dar continuidade no tratamento oncológico. Amante da arte e da literatura, ao receber a carta personalizada do projeto Kailayne conta como se sentiu acolhida: “Foi muito importante perceber que no hospital tem muitas pessoas que se importam e nos ajudam a passar por esses momentos que são difíceis”.

Miriam Ibanhes
AssCom Hospitais Cassems